terça-feira, 27 de abril de 2010

Velha Roupa Colorida

Se tem uma coisa que realmente me irrita é ouvir pessoas se vangloriando de um passado de desrespeito aos direitos individuais. A frase "no meu tempo era assim" normalmente é precedida ou seguida de alguma barbaridade, do tipo "não se questionava, apenas obedecia" ou "mulher só trabalhava em casa" ou quem sabe "criança não tinha vontade", ou até mesmo “ter um filho viado era uma desonra”. Entretanto pra mim, pior do que o saudosismo a um tempo de trevas é querer utilizá-lo como justificativa a uma ação descabida no presente.

Eu fico meio que admirada quando ouço afirmações, que declinam dessa linha de raciocínio, de pessoas que não são, não descendem e nunca farão parte da elite dominante desse país. Me parece que o “no meu tempo era assim” é a confirmação ingênua de quem não sabe mas foi “alienado” ao ponto de aceitar e até concordar que seus direitos fossem sufocados em prol de interesses meramente particulares. Interesses que engrandecem apenas ao ego, a vontade e a vaidade de quem tenta oprimir e roubar a dignidade do outro.

Talvez alguns atrasados ainda não tenham percebido, enquanto que outros apenas ignoram a mudança do tempo e tentam, ainda com algum sucesso, manter as velhas estruturas de desrespeito. A verdade é que independente do posicionamento da massa alienada ou da elite dominante essa é uma parte do nosso passado que não nos serve mais.

Não nos serve mais a existência de assassinos cruéis e racistas que matam queimados índios pelas esquinas. Não nos serve mais ter mulheres violentadas física e moralmente, por vezes mortas, pelos seus conjugues. Não nos serve mais um militarismo pelo meio e as avessas que sob a máscara da discricionariedade tenta submeter funcionários concursados as vontades de seus superiores hierárquicos e não as necessidades do bem estar público. Não nos serve mais ter malas, cuecas, meias, bolsas e bolsos cheios do dinheiro público passeando pelo Brasil e pelo exterior para sustentar o luxo de quem deveria oferecer dignidade ao povo. Não nos serve mais o preconceito cruel e excludente que assedia moralmente, no trabalho e nas escolas, homossexuais. Não nos serve mais o descaso de governos que não se preocupam com a inclusão social, econômica e cultural de pobres, negros, idosos e deficientes físicos. Tem tantas outras coisas que não nos serve mais que é só abrir o jornal ou assistir a um noticiário pra perceber que se a democracia já nos pertence de direito ainda falta muito para que possa ser nossa de fato. Mas enquanto isso não acontece deixo para os desavisados, os que não sentem nem vêem, os fingidos e até mesmo para os declarados defensores da impunidade e do desrespeito a voz estridente de Elis Regina cantando a música de BelchiorVelha Roupa Colorida”.

Ouça a interpretação de Elis Regina em Falso Brilhante-1998 on line: http://app.radio.musica.uol.com.br/radiouol/cdcapa.php?artista=Elis-Regina&album=Falso-Brilhante&codcd=000420-0


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