
"Pois doutô, dos vinte estados
Temos oito sem chover
Veja bem, quase a metade
Espaço reservado por quem não entende, não conhece mas gosta muito de música. Para escrever, ouvir, comentar, conhecer, aprender e sentir um pouco da boa música brasileira. Entrem, puxem a cadeira, sentem, tomem um pouco de vinho e fiquem a vontade...
De acordo com a ideologia autoritária pregada pelo governo militar durante a ditadura, a música possuía a função de educar e doutrinar. Composições que exaltassem a malandragem e a boêmia ou que fossem de encontro a ideologia pregada pelo governo, por exemplo, não deveriam ser divulgadas pelos canais de comunicação. Para exercer a censura ao teatro, ao cinema, a radiodifusão e a imprensa como um todo, com o intuito de difundir e de popularizar os ideais do Estado Novo, em Outubro de 1939 foi criado o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Durante o seu período de vigência vários artistas tiveram suas músicas censuradas por muitos anos e alguns foram perseguidos pelo regime militar sendo obrigados a exilar-se em outros países. Geraldo Vandré foi um dos músicos, compositores da época que se viu obrigado a exilar-se para fugir dos rigores do autoritarismo da ditadura, após sua música "Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores", canção que ficou conhecida como hino de resistência do movimento civil e estudantil à ditadura militar, ter sido censurada e sua cabeça posta a prêmio.
No mesmo ano, 1968, em que "Caminhando", nome pelo qual também é conhecida a música citada acima, ganhou o Festival Internacional da Canção Vandré juntamente com Geraldo Azevedo compôs “Canção de Despedida” uma crítica a ditadura coberta por uma fina capa de romance que conta a história de separação de um casal de amantes. A música versa a respeito de um “rei mau”, na época o então presidente Costa e Silva, que “não queria o amor em seu reinado, pois sabia não ia ser amado”. O trecho citado faz referência ao momento de instituição do AI-5, em que a ditadura militar já começava a perder folego, pois as manifestações estudantis estavam conseguindo reduzir consideravelmente o apoio da classe média ao governo militar. Na música o amante que vai embora forçadamente: “eu quis ficar aqui, mas não podia” pede para quem fica: “não chora”, explicando que “a hora é de deixar” mas deixa esperança de retorno: “pois sei que vou voltar... Se volto é pra ficar”. A canção de pronto foi barrada pelos censores e ficou anos até poder ser gravada. Geraldo Azevedo a gravou em 1985, na faixa 09 (nove) do disco Luz do Solo. Em Dezembro de 1968 Vandré se exilou no Chile e depois na França só retornando em 1973 e não mais se apresentou em palco brasileiros apesar de continuar fazendo música.