Nesta vida já me emocionei com diversas canções belas e melancólicas que falam sobre separação. Dentre todas sempre imaginei que “Eu te amo”, música de Tom Jobim e letra de Chico Buarque, era insuperável, não somente pelo amor triste e calmo, maduro, da melodia, mas, também pela letra irretocável, onde o amante mostra a quem o deseja deixar que não se deve olvidar tantas coisas construídas, vividas e até, por que não, tantas mais por viver.
Desta forma, como vejo que não se compõe atualmente tantas coisas belas e profundas assim, acreditei impossível que alguma outra música me tocasse tanto quanto esta. Porém havia eu esquecido que este passado frutífero tem um universo infinito onde minha ignorância é senhora. Assim sendo, assistindo competições de patinação artística no gelo, vi um atleta suíço, Stephane Lambiel, interpretando, dançando uma música francesa de Jacques Brel de nome “Ne me quitte pás”, que eu já conhecia, claro. E Lambiel interpretou com tamanha amargura que eu me entristecia e amargurava sempre que revia tal apresentação, foi quando lembrei que minha ignorância também era senhora da letra de tal composição. Eu não sabia patavina do queria o autor falar com aquela obra. E fui compelido a conhecer a letra desta música.
Creio que ver, conhecer, sentir, perceber a letra da música “Ne me quitte pás”, tenha sido uma das experiências mais prazerosas que tive nos últimos tempos. A cada verso, cada parábola eu era tomado por uma surpresa, uma satisfação tão grande que somente se comparava à amargura e tristeza que também sentia junto com o poeta. Tal qual “Eu te amo”, aqui já citada, o poeta tenta de todas as formas dissuadir sua musa do escopo principal que é deixá-lo. E é exatamente aí que reside a diferença entre a tristeza da letra escrita por Chico e a loucura exposta por Brel. Enquanto Chico mostra os passos de uma vida ao lado da parceira, com aspectos cotidianos delineados por poesia, a rotina mostrada com beleza suprema, Brel se lança aos delírios do amante que não tem por si amor, orgulho algum. Brel em cada estrofe parece encarnar um amante cada vez mais alucinado, louco e desta forma encarna vários amantes, aqueles que cada um de nós é uma vez ou outra. Começa tentando esquecer erros e questionamentos mínimos ou sumários. Depois encarna o amante que tudo promete inclusive o impossível, como no verso “Te oferecerei pérolas de chuva vindas de países onde nunca chove” e mesmo a eternidade “Escavarei a terra até depois da morte, para cobrir teu corpo com ouro, com luzes”. Logo após se lança megalomaníaco na passagem que mais gosto da música “Criarei um país onde o amor será rei, onde o amor será lei e você a rainha.” Depois Brel se mostra profundamente romântico capaz de falar a língua que somente aqueles que se amam entendem, e colocando sua musa em altar mor. Brel ainda se mostra esperançoso, crendo que o amor pode ressurgir sempre e ainda melhor como no por do sol onde o vermelho e o negro se enlaçam transformando em algo mais belo.
A última estrofe é a onde surge o mais triste e infeliz dos amantes, aquele que não tem brio, aquele que não tem por si respeito algum, orgulho algum. O amante que jaz sem esperança e se resigna a ficar ali e nada fazer. Aquele consumido por uma paixão voraz e não correspondida que somente quer saber se o seu objeto de desejo está bem e feliz. Aquele amante que já não existe e que quer somente “ser a sombra da tua sombra, a sombra da tua mão, a sombra do teu cão”. Não me deixes.
Ne Me Quitte Pás - Jacques Brel
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